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Touros de morte em Monsaraz e a falácia da tradição

O apelo à tradição é um argumento frequentemente usado pelos aficionados da tauramaquia. No dia 14 de Setembro as notícias da RTP1 relataram com vivído triunfalismo e vivacidade na voz da locutora, o “sucesso” do povo de Monsaraz que finalmente após uma”luta” de 15 anos conseguiu poder matar o touro sob os auspícios da lei.

Entre urros primitivos de voyorismo cruel, sedosos de sange, uma multidão de ignóbeis ignorantes aplaude o espectáculo. Uma tradição de 150 anos foi finalmente ressuscitada.

Isto são cenas de vida Portuguesa no século 21, que enojam qualquer pessoa com um mínimo de princípios morais, empatia e consideração pela vida.

Abraçando a falácia da tradição, o Juiz concedeu o direito à barbaridade e retrocesso à escuridão. Questiono-me que juiz pode ser tão ignorante que aceda a assinar tais decisões? Isto é mais uma prova que uma licenciatura em Direito não é educação nem cultura.

Queria então instruir esse ignorantado nacional que tradição não é o mesmo que cultura. Tortura não é cultura!. Se vamos basear as nossas actividade lúdicas na falácia da tradição, porque não trazemos de volta as sovas ocasionais que os maridos davam às mulheres e filhos durante o tempo do fascismo? Ou já agora, porque não ir ainda mais atrás na cronologia e trazer a queima das bruxas no adro da igreja? Seria um espetáculo interessate de se ver. Uma inquisão feita de cépticos e todos esses charlatões ardendo em frente dos olhares dum povo vociferante, gritando palavras de acusaão aos traidores da razão.

A questão dos touros não é uma questão de tradição mas sim de moralidade. A questão que deveria ser debatida por esse ignorantado geral que tem poder de decisão é se será moralmente aceitável infringir actos de crueldade sobre seres sencientes que compartinham com o ser humano, um cérebro equipado com um sistema límbico que proporciona as mesmas emoções de medo, terror desepero e auto-preservação. De facto existem dois aspectos morais nesta discussão.

O primeiro tem uma vertente consequencialista onde se questiona se a consequência destas acções trazem ou não algo positivo para o sujeito que é alvo do insulto. O segundo tem ume vertente baseada em teoria da virtude, onde se questiona se os observadores de tal espectáculo ao derivar prazer da observação de actos de crueldade estarão melhorando os seus píncipios morais. Quem retira prazer da observação de sofrimento tem provávelmente uma personalidade psicopata. Se as pessoas que observam actos obscenos são criticadas, porque não os espectadores de actos públicos de crueldade? Pelo menos na pornografia existem dois parceiros que consentem e são pagos no fim do filme.

O tratamento cruel dum animal, como se observou em Monsaraz não é menos obsceno do que a observação de pedofilia e agressão para com crianças indefesas. Pergunto porque se dá autorização para a observação publica duma obscenindade e se pune a outra?

A minha experiência internacional relativamente à moral social têm me mostrado que o abraçar de elevados princípios morais é inversamente proporcional à influência da religião nessa sociedade. Será que o atraso dum povo se mede pela influência da religião? Mahatma Gandhi na sua famosa elocução elucidou-nos que a cultura dum povo se pode medir pela forma como eles tratam os seus animais.

Os últimos 15 anos da minha carreira têm sido dedicados a leccionar em comportamento, bem estar e ética animal não só em Universidades Inglesas ( inclusivé em Cambridge) mas também a nível iternacional. Todos os anos sou convidada para palestrar e oferecer cursos no Brazil e tenho visto uma evolução muito rápida para a consciencialização da causa animal neste País. Os polítcos locais e do Senado aprovam leis de protecção animal umas atrás das outras. Existem perfeituras que proíbiram o uso de animais em circos, outras que proíbiram o rodeio, e ainda outras que participam na castração e vacinação gratuita de todos os animais de rua ou de pessoas sem recursos. Há uns anos atrás participei num “think tank” para discutir a lei de protecção animal do estado de São Paulo. Uma lei muito próxima das directivas de Bem Estar e Protecção Animal da Comunidade Europeia. Os congressos, cursos e workshops onde vou estão sempre cheios de gente interessada em promover a protecção, o bem estar ou os direitos dos animais. Mas que quero deixar aqui uma palavra de precaução sobre estes três conceitos que são muito diferentes e muito confundidos em Portugal.

A protecção animal é uma atitude social onde grupos de pessoas acolhem animais destituidos e tentam oferecer-lhes uma vida que providencie para o mínimo das suas necessidades, geralmente a muito custo financeiro dos protectores.

O bem estar animal é uma ciência que se preocupa em desenvolver métodos que contribuam para uma diminuição do sofrimento animal. Sendo uma ciência, baseia-se no método científico colhendo evidência para suportar hipóteses sobre a cognição e o sofrimento dos animais que se encontram sob o domínio do homem. Mas sendo uma ciência baseada em empiricismo e objectividade, não deixa de ter como pano de fundo uma preocupação moral com a integridade animal.

Os direitos dos animais consiste numa filosofia que assume que todos os animais têm direitos morais e que fomenta movimentos liberacionistas de várias inclinações e forças, que se estedem de pessoas rasoáveis com quem se pode trocar argumentos racionais e procurar um consesus, até à “loony fringe” dos liberacionistas que estão dispostos a enveredar por estratégias terroristas e extremistas. A grande maioria dos militantes destes movimentos de libertação animal, não têm qualquer conhecimento sobre o conceito de direitos muito menos sobre filosofia moral.

Em Portugal as touradas são um assunto que tem sido abraçado pelos movimentos de libertação e de direitos dos animal, mas devido ao discurso extremista que muitos dos seus representantes usam, a consequência é uma alienação daqueles que têm poder de decisão para mudar o status quo dos animais em Portugal. As pessoas rasoáveis que se sentem indignadas com a situação, ficam caladas, não sei se por medo de ofender os seus copinchas políticos ou por pura perguiça porque acham que tomando acção não vai mudar nada.

As pessoas razoáveis são frequentemente pessoas com sentimentos, empatia,são indivíduos sensiveis, educados e com cultura. São pessoas que se sentem incomodadas pelo sofrimento de seres sencientes e indignadas quando esse sofrimento é induzido para prazer de uma massa minoritária de incultos. São essa pessoas razoáveis que precisam de se levantar e fazer ver a quem tem o poder de assinar leis, que esses actos são moralmente inaceitáveis no século 21, numa sociedade que se diz culturalmente evoluída, onde o poder de uma duzia de ignorantes incultos se sobrepõe às opiniões da maioria do país. Mas o problema é que os escroques das touradas são aqueles que fazem barulho e se mexem, equanto que orla indignada se mantém quieta num impotente desepero. Esta atitude amorfa de desinteresse permeia a sociedade Portuguesa como um cancro de crescimento rápido de células preguiçosas. Como dizem os ingleses, “o pássaro que come mais é aquele que pia mais alto”.

Mas estou divergindo. O meu objectivo com este texto é esclarecer que as tradições baseadas em actos moralmente inaceitáveis não são cultura. Monsaraz têm uma história com raizes no Islão, pois foi uma fortificação moura. Então porque não recuscitar o apredrejamento das mulheres até a morte como forma lúdica para atrair turistas? Também é uma tradição!…

O que mais me idigna, e deveria indignar todos vocês que pagam impostos, é que estes espetáculos têm o avale e subsídios públicos das Cãmaras locais para aquilo que eles classificam como “cultura”. Dinheiro (que você pagou com tanto custo apertando o seu cinto) para subsidiar actos com os quais você discorda. Quanto tempo mais você vai permitir que essa gente lhe abaixe as calças?

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